O poder do “só”

Nós, da área de desenvolvimento de software (suporte, análise, desenvolvimento, testes, entrega, comercial, etc.) estamos acostumados a conviver com tarefas. Praticamente todas as etapas de nossos trabalhos são mapeadas e documentadas. Mas há um problema que ainda perdura em nosso dia-a-dia: Os atrasos! Os atrasos são os causadores de grandes estresses e atritos, e é claro, são muito prejudiciais ao relacionamento interno e com os clientes.

Recentemente tivemos uma epifania em nossa equipe. Em certo momento, notamos que, ao utilizar uma simples preposição em nossas frases, estávamos plantando uma má perspectiva sobre o que estávamos fazendo ou iríamos fazer. Notamos que, ao utilizar a simples palavra “só”, estávamos denegrindo o tamanho real das coisas. Vou explicar melhor.

Preposição

O uso de preposições em frases que dizemos o dia todo é muito comum. Mas, nem todas são realmente necessárias. Algumas úteis, outras nem tanto. Mas a preposição “só” pode ser eleita como a pior de todas.

Ao utilizar esta preposição, estamos automaticamente diminuindo o tamanho do trabalho a ser realizado, tanto o nosso, quanto o alheio. Não consegue pensar num exemplo claro? Veja:

Vamos imaginar que um desenvolvedor esteja realizando uma implementação, e, ao finalizar cerca de 90% de sua tarefa, seu gerente indaga sobre o que falta ser feito. A resposta para esta indagação normalmente seria: Falta só fazer check-in! O gerente acata a resposta e sai.

O que você acha da situação exposta acima? Em uma situação normal de finalização de tarefa, normalmente não é “só” fazer check-in. Temos que fazer um code review do que alteramos, verificar a cobertura dos testes, documentar o check-in, documentar a tarefa, homologar, etc. A perspectiva do gerente é de que a tarefa seria finalizada em até cinco minutos, que é o tempo necessário para realizar um check-in. Algo controverso ao cenário real.

Influenciando

A pior forma de influenciar através do “só” é no momento de estimativas e levantamento de requisitos. Durante o período diário de estimativas, normalmente gastamos algum tempo discutindo a parte técnica da solução. E, durante esta discussão, se alguém disser que “é só” mudar tal parte de algum módulo, automaticamente os colegas acharão que suas estimativas estão muito altas, já que o trabalho a ser realizado é ínfimo. Mas nem sempre é tão fácil quanto parece.

Nosso cérebro nem sempre consegue enxergar todos os riscos, adversidades e contratempos. Pensamos de uma forma focada ao invés de pensar de uma forma periférica. Isto nos leva à pensar que as tarefas tem um tamanho menor do que realmente é.

Para entender melhor, assista ao vídeo abaixo. Neste vídeo é explicado porque as tarefas demoram mais tempo do que o planejado.

É possível entender o porquê do “só” influenciar tanto em nossos afazeres diários. Ele nos força a focar em detalhes que parecem simples, e não nos permite olhar de uma forma abrangente para que possamos entender o real tamanho das situações.

Sendo influenciado

Outra situação comum nestes ambientes, são as falsas perspectivas que temos do tamanho das tarefas. Isto vale tanto para gerentes/analistas quanto para clientes.

Se você é um gerente e pergunta para um analista o que deve ser feito para resolver um determinado problema, e este analista diz que “é só” fazer tal coisa, desconfie. Não estou dizendo que você deve desconfiar de tudo e de todos. Mas, é importante ter uma visão crítica sobre as situações que lhe são apresentadas. Ao ter esta visão crítica, você naturalmente irá querer saber mais detalhes, o que fará com que o analista tenha uma visão mais abrangente da situação, e assim, eliminando o “só” da conversa.

Da mesma forma como acontece internamente, acontece externamente. Se você (seja qual for o cargo) entra em contato com um cliente e diz que para resolver o problema dele “é só” executar uma determina ação, você pode estar deixando uma perspectiva muito otimista nas mãos do seu cliente. E creio que todos já sabem o que acontece neste cenário: Quando você atrasar algo que anteriormente fez com que o cliente pensasse que era simples, você terá um cliente bem bravo para controlar.

Seja qual for a situação, evite acatar soluções que venham com a palavra “só”. Pode ser ruim para você, seus colegas e principalmente seu chefe (os clientes).

Perspectiva

A melhor perspectiva que você pode (e deve) gerar é a realista. Quando você recebe uma perspectiva otimista, você espera confiantemente que algo será feito muito rapidamente e sem contratempos, não é mesmo? Da mesma forma ocorre quando você entrega uma perspectiva otimista a alguém. Este alguém espera que você execute algo rapidamente e sem qualquer contratempo, acreditando firmemente que não haverá atrasos e que tudo estará pronto no prazo prometido. É aí que mora o problema. Perspectivas otimistas normalmente estão erradas. E isto eu posso falar com toda tranquilidade!

Devemos sempre estar atentos à essência das perspectivas que recebemos e entregamos. Devemos sempre elevar esta perspectiva à um nível realista, nem otimista, nem otimista. Quando elevamos para um nível realista, estamos expondo os riscos, os contratempos que podem ocorrer, e deixando claro que o que será realizado não é tão simples quanto parece e que pode, de alguma forma, atrasar. É claro que isto se aplica diferentemente de acordo com a situação. Mas quando temos prazos apertados, pressão excessiva e alguém aguardando a conclusão de uma tarefa, não há espaços para más perspectivas.

A perspectiva pessimista também é prejudicial, pode não parecer, mas é! Quando você fala para seu cliente que levará 20 horas para resolver determinada situação e leva 6, na próxima vez, mesmo que diga que levará 30, seu cliente estará confiante que você terminará em 10 horas. Pode parecer estranho, mas acontece. Principalmente quando seus colegas se acostumam com suas perspectivas pessimistas, pois, não mais acreditarão nas suas promessas e sempre acharão que você leva a metade do tempo que você estima para realizar algo. Lembra da história “O pastorzinho e o lobo” do lobo? É a mesma situação.

Valorize o Trabalho

Não deixe que uma simples preposição denigra o tamanho do seu trabalho. Faça com que todos saibam o real tamanho da solução. Sempre que você utiliza a palavra só, você está diminuindo o tamanho do seu trabalho, mesmo que ele seja grande. Não parece uma situação legal, certo?

Evitando o “só”

Apesar de difícil, é totalmente possível e válido eliminar o “só”. Veja como o tom das frases abaixo tomam um ar de profissionalismo ao evitar o “só”:

O que precisa ser feito para resolver?

  • Precisamos alterar o método [Nome do Método].
  • Precisamos alterar o método [Nome do Método], verificar as referências, atualizar e executar os testes.

Quanto tempo você levará para realizar o upload do pack de atualização?

  • Preciso conectar no servidor do cliente e realizar o upload do pack. Então, 10 minutos.
  • Preciso verificar a disponibilidade da VPN, pois, corro o risco de ter que configura-la. Após isto, devo conectar no servidor e realizar o upload do pack. Então, 20 minutos.

As perspectivas mudam completamente quando evitamos a palavra “só”, não é mesmo?

Resolvendo o Problema

Em nossa equipe, ao percebermos o poder negativo do “só”, resolvemos abolir ele de nosso dia-a-dia. Mas, não é tão fácil! Dizer “só” é uma má cultura que temos em nossos cérebros, parece que é de fábrica. Apesar de termos conseguido diminuir o número de ocorrências diárias, ele ainda está presente entre nós.

Quando detectamos ele em nossas estimativas ou especificações, prontamente damos uma maior atenção e então lutamos para que as situações ofuscadas por ele sejam reveladas, e assim, obtemos perspectivas realistas e consequentemente, estimativas realistas.

Para que você elimine esta má prática de sua equipe, é necessário que todos estejam empenhados nesta árdua tarefa. Não precisa ser em toda a empresa, comece em seu departamento. Mesmo que não consiga convencer a todos, pratique você mesmo. Evite utilizar esta preposição, e quando alguém lhe dá uma perspectiva de alguma situação que venha junto com a palavra “só”, prontamente questione, extraia mais informações, faça com que olhem de uma forma abrangente e você perceberá como haviam situações ofuscadas.

Disseminando este Conteúdo

Acreditamos que todos devem ter um ambiente agradável de trabalho, sem atrasos, estresse e atritos. Por isto, assim como este post pode lhe ajudar e ajudar sua equipe a conseguir perspectivas mais realistas, outras equipes também podem usufruir deste post. Ajude a compartilhar e disseminar este conteúdo, ficaremos muito agradecidos!

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